sábado, novembro 29, 2025
Saúde

Regiões do cérebro que controlam a função de andar podem ser melhor treinadas mesmo após lesão medular, aponta pesquisa

Foto: Ascom-ISD

Regiões do cérebro humano responsáveis pela função de andar podem ser exercidas e ativadas mesmo em pessoas que sofreram lesão medular completa. É o que revelam cientistas do Instituto Santos Dumont (ISD), Organização Social vinculada ao Ministério da Educação, em estudo que combina treino mental e análise de movimentos (neurofeedback) com tecnologia robótica voltada à reabilitação física.

Publicado na revista científica internacional “IEEE Transactions on Human-Machine Systems”, o estudo tem como objetivo investigar se o uso do neurofeedback pode aumentar a capacidade e habilidade do usuário em realizar a prática mental dos movimentos corporais envolvidos em uma longa caminhada.

Contudo, diferente dos outros sistemas de neurofeedback, este foi desenvolvido especificamente para distinguir o que é efeito da imaginação do movimento daquilo que vem apenas do movimento das pernas provocado pelo treino robótico de caminhada com o Lokomat, um sistema robótico que suspende o usuário em uma esteira e executa o movimento de membros inferiores. Assim, foi possível entender com mais clareza como a imagética motora baseada em neurofeedback, por si só, pode contribuir para a reorganização dos ritmos corticais após a lesão da medula espinal

Em termos práticos, os pesquisadores submeteram os participantes de pesquisa com lesão medular ao treino robótico enquanto o neurofeedback ensinava o usuário a modular seus ritmos cerebrais de modo diferente da modulação cortical induzida apenas pelo treino da caminhada passiva no Lokomat. “A intervenção testada foi além do que o treinamento passivo pode proporcionar, focando em como o cérebro aprendeu a ativar padrões próximos aos do movimento ativo”, explica a professora pesquisadora Caroline Cunha do Espírito Santo, que participou do trabalho.

Ela ainda complementa que quando foi testada a mesma intervenção oferecendo um neurofeedback falso, não houve diferença na atividade cerebral durante a imagética da caminhada em relação ao movimento no Lokomat, indicando ausência de prática mental.

Esses achados mostram que o neurofeedback é crucial para engajar as áreas motoras corticais durante a imagética motora da caminhada após lesão medular completa, superando a eficácia de comandos verbais.

O estudo publicado faz parte de um dos projetos de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Neuroengenharia do ISD (PPGN/ISD), que tem como uma de suas matrizes o desenvolvimento de tecnologias inovadoras para a solução de desafios na reabilitação de doenças e condições neurológicas.

A fisioterapeuta e neuroengenheira Ericka da Silva Serafini, egressa do PPGN, assina o artigo sob orientação da professora Caroline e do professor Denis Delisle-Rodríguez. Segundo os pesquisadores, o estudo aproxima o uso de técnicas científicas como a Eletroencefalografia (EEG) e o neurofeedback à prática clínica.

“Este trabalho aponta que mesmo indivíduos sem movimento voluntário conseguem apresentar modulação da atividade cortical quando recebem tarefas estruturadas e feedback adequado. Isso fortalece a ideia de que o cérebro pode ser treinado mesmo na ausência de função motora, abrindo espaço para estratégias personalizadas baseadas em tecnologias assistivas”, explica.

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