segunda-feira, abril 27, 2026
Valério Mesquita

Eternos foliões

Valério Mesquita

mesquita.valerio@gmail.com

01) O Carnatal é uma longa e penosa travessia em cujo corredor ou camarote pode naufragar qualquer mortal. Desde um simples ASG, por trás do abadá, até um deputado, um magistrado ou um senador. Desta vez foi um juiz, probo, honesto, íntegro, mas vulnerável à folia porque ninguém é de ferro. O saudoso amigo Dr. Célio de Figueiredo Maia, à época, gordíssimo, 130 quilos ou mais, visitava camarotes e descia por vezes para saudar os blocos na avenida. Numa das vezes, retornando ao seu lugar, foi interceptado pelos seguranças. “O senhor não pode estar subindo e descendo”, falou grosso um deles. O Dr. Célio identificou-se como magistrado e deve ter invocado o direito constitucional de ir e vir. Mas, segurança de Carnatal é pior do que Taliban: “É contra as normas estabelecidas pela Destaque. Se insistir pode ser preso”. O sábio juiz, ali lavrou uma sentença pétrea: estendeu o imenso corpanzil no solo fértil da alegria e insinuou sem embargos – “Agora, podem me prender!!”. Surpresos, os seguranças recuaram. Mas uma liminar provedoura do advogado Ethewaldo Ferreira de Aquino, contornou o impasse jurídico. E viva o Dr. Célio!!

02) Zé Jeep era engraxate, tocador de trombone e palhaço dos pastoris suburbanos de Macaíba. Figura lírica que chamava a atenção pelo seu pequeno porte de um metro e meio. A sua cadeira ficava na rua Nair Mesquita (antiga João Pessoa), centro. Vez em quando, era flagrado em imperturbáveis cochilos, frutos da boêmia noturna. Gostava de beber mais do que podia e cabia o seu invólucro corpóreo. Certa vez, tocava num bloco carnavalesco de assalto que visitava a casa do então prefeito Alfredo Mesquita, de quem era correligionário, e colocou-se ao lado do seu líder soprando forte o trombone para impressionar. De repente, Zé Jeep deixou escapar um ruidoso estampido intestinal. O velho político não dispensou o comentário: “José, o seu trombone tá vazando som desnecessário”. A grande performance da sua vida, gravada na memória de tantos que o conheceram, não foi somente a do engraxate, ressacado, mas a do pequenino homem da noite pobre dos pastoris da cidade, que entre dianas, pastoras e contramestres, sustentou a alegria brejeira, limpa e simples dos humildes, que hoje não se vê mais. Zé Jeep faleceu há mais de 30 anos passados.

03) Diógenes Correia de Almeida era um carnavalesco atípico, solitário e original. Vestia uma quase sumária roupa feminina para exibir as suas musculosas pernas, com todos os balagandães femininos: seios postiços, batom, rouge, touca e sandálias. O seu passe era disputado pelas Escolas de Samba como destaque nos desfiles. Acabava o carnaval, Diógenes retornava ao trabalho da sua destilaria no fabrico de zinebras, aguardentes, conhaque e tudo o mais que embriaga e faz cair. Entre os anos 50 e 60 foi vereador e protagonista político de inúmeras peripécias. E como tal, foi perseguido pelos donos do poder pela desfaçatez e esperteza de enganá-los como oposicionista, principalmente nas eleições para Presidência da Câmara. Diógenes faleceu há mais de 10 anos. Dele eu posso dizer o seguinte: Diógenes, que tantos homens foi, na pluralidade de suas dimensões caracterológicas, em mim e em muitos ficou a imagem do folião inigualável, primeiro e único na coragem de se exibir, por tantos anos, vestido de mulher para espanto de uma sociedade reacionária.

(*) Escritor.

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