RELEMBRANDO D. ENEDINA

Valério Mesquita*
mesquiva.valerio@gmail.com
Com 94 anos faleceu em Macaíba a minha primeira professora Enedina Augusta Bezerra. Era formada pela Escola Normal de Natal e exerceu o magistério em alguns municípios, inclusive Santana do Matos onde conheceu o marido Romão Bezerra de Azevedo com o qual celebrou núpcias e ultrapassou as bodas de diamante (66 anos). Desse matrimônio nasceram quatro filhos: DIlma, Dílson e Edilson (amigo de infância e juventude), todos falecidos e Romeu, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, onde reside.
Foi em Macaíba que a sua vocação se manifestou com mais intensidade, como educadora de inúmeras gerações. Ela pertence a galeria das célebres professoras da rede pública de Macaíba que marcaram época em quatro décadas de ensino: Arcelina Fernandes, Maria Nazaré Madruga, Alice de Lima e Melo, Constância Freire, Naide Tinôco, Neta Peixoto, entre outros nomes mais recentes. O referencial da atividade da professora Enedina foi a direção do modelar Grupo Escolar Estadual Auta de Souza. Comandou a educação em Macaíba, também, na área do ensino municipal como secretária da educação, coordenadora do Mobral, completando trinta e dois anos de efetivos serviços prestados à causa e se aposentando na década de 1970.
Pela notável atuação de sua carreira, em 2002, recebeu a medalha do mérito Seabra Fagundes, outorgada pelo Tribunal Regional do Trabalho por proposição de outra ex-aluna macaibense, a desembargadora federal Maria de Lourdes Alves Leite.
Enedina católica, filantropa, mãe exemplar, são outros traços fundamentais do seu perfil. A sua personalidade aguerrida infundia confiança aos administradores municipais pela competência e lealdade com que desempenhava o posto funcional conferido. Tinha a estigma da funcionária pública padrão, cônscia de suas obrigações e responsabilidades. Ao reverenciá-la, cumpro o dever de consciência e de respeito em tributo à sua trajetória, para que Macaíba nunca se esqueça de que ela existiu e nos legou admiráveis lições de vida.
Percorro, agora, a paisagem distante de 1953, como se procurasse as imagens da rua Pedro Velho, onde ouvi e aprendi os seus ensinamentos e deveres de casa. Mas a memória me esconde. Recolho algumas coisas que o tempo me devolve: o ruído do portão de ferro; o sobrado de estilo neoclássico e a frondosa mangueira ao lado, espalhando sombra e quietude. Lembro-me do local de seu Romão no antigo mercado no centro de Macaíba, onde a sua bondade promovia-se tanto quanto a sua simplicidade, que imprimia em nós meninos, pinceladas de impressão mística e espiritual de um capataz de profundos silêncios e longas esperas. Este era o universo feliz que nós macaibenses perdemos com a partida da professora Enedina para receber do Senhor nova missão educacional de primeiro e segundo graus, nos páramos celestiais.
Valério Mesquita

