A humanidade das mães

A intensificação do ingresso das mulheres no mercado de trabalho, notadamente a partir da década de 1970, nos fez assumir o rótulo de super heroína. Aquela capaz de dar conta das mil e uma tarefas da vida privada com a casa, educação dos filhos e marido e mais, ser uma profissional eficiente e exemplar. Rótulo que nos permitiu, à época, permanecer no mercado de trabalho. Era trincar os dentes e dar conta de tudo. Porque a outra opção era reclamar da sobrecarga, dar um passo atrás e ouvir: inventou de trabalhar fora de casa porque quis.
O comércio logo se apropriou disto, enfatizando esse rótulo que foi útil, embora cruel. E explora até hoje. Porque não nos serve mais, porém continua a ser conveniente para a sociedade. Eu rejeito esse rótulo! Sou uma mulher de carne e osso. Humana. Não encontro nada de romântico nessa impossibilidade óbvia de ser heroína.
E me mostro, na minha humanidade, àqueles que me cercam. A começar pelos meus filhos. Me recordo, imediatamente, de uma lembrança ainda criança. No carro, minha mãe dirigindo, meus irmãos e eu numa arenga sem fim e ela dizendo: vou já parar o carro e sair correndo doida! Era seu jeito de nos dizer: estou cansada igual a vocês, tive um dia de trabalho que me exigiu muito.
Sou de outra geração. Que aprendeu a ser mãe em outro tempo, forjada num feminismo que não tem vergonha de ser. (Uma pausa para reverenciar minha mãe, mulher forte, que viveu o feminismo à sua maneira. E, por meio dela, reverencio todas as mulheres que trilharam o caminho até aqui, esperando honrar cada passo.). Eu falo mesmo, da forma mais literal possível. Não sou só Flávia mãe. Sou muitas. E há momentos nos quais as outras se sobrepõem.
Certa vez, aos 3 anos, Mateus me chamou de chata. Respondi: é normal. Às vezes, eu também acho você chato. E essa situação me fez refletir sobre o quanto é importante demonstrar nossa humanidade aos nossos filhos. O diálogo e a sinceridade pautam nossa relação. Espero, sinceramente, que eles lembrem, no futuro, o quanto a mãe deles foi a melhor que poderia ser, com seus defeitos e suas qualidades. Humana, em todas as suas fragilidades, sendo a mãe possível.
Flávia Urbano.

