sábado, maio 2, 2026
Saúde

Casos de câncer em jovens adultos de até 50 anos aumentam 284% no SUS entre 2013 e 2024

Jaqueline Chagas descobriu um câncer de mama aos 36 anos — Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/Divulgação

Fazia sete anos que a operadora de caixa Jaqueline Chagas, então com 35 anos e hoje com 46, ouvia do ginecologista que o caroço que deformava seu seio era benigno. “Dava para sentir o nódulo no abraço”, relembra.

O que ela não sabia é que fazia parte de uma tendência crescente no Brasil e no mundo: o aumento de casos de câncer em pessoas de até 50 anos.

Entre 2013 e 2024, o número de diagnósticos nessa faixa etária cresceu quase quatro vezes (284%) no Sistema Único de Saúde (SUS) — de 45,5 mil para 174,9 mil casos, segundo um levantamento feito pelo g1 com dados do painel DataSUS.

Os tumores de mama, colorretal e fígado estão entre os que mais crescem nesse grupo.

O câncer de mama lidera os diagnósticos, com alta de 45% entre 2013 e 2024 e mais de 22 mil novos casos anuais de mulheres de até 50 anos registrados no SUS.

Foi durante uma mamografia de urgência que Jaqueline descobriu o diagnóstico.

“A médica que me examinava olhou para a colega dela e disse: ‘Mais uma jovem com câncer de mama, essa é a terceira hoje’. Foi assim que descobri que tinha câncer”, conta.

“Eu congelei. Primeiro, tive certeza de que morreria. Depois, pensei na minha mãe.”

Brasil tem lacuna de dados

O diagnóstico de Jaqueline foi carcinoma grau 3 localmente avançado. Vieram oito sessões de quimioterapia, uma mastectomia radical e complicações graves durante o tratamento no Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Rio de Janeiro.

Na sexta quimio, Jaqueline teve neutropenia (queda brusca dos leucócitos, responsáveis pela defesa do organismo) e sepse, uma infecção generalizada grave que, segundo os médicos, poderia ser fatal.

“Disseram ao meu marido que eu tinha poucos dias de vida. Lembro de pensar que não veria mais minha casa. Depois de uma semana, os leucócitos começaram a reagir”, diz.

Assim como Jaqueline, a maioria dos pacientes com diagnóstico precoce passa pela rede pública, onde estão concentrados os registros: 75% da população é atendida pelo SUS.

Especialistas ouvidos pelo g1, porém, alertam que o problema é ainda maior do que as estatísticas mostram: o Brasil não tem dados completos da saúde suplementar, e parte expressiva dos casos pode estar oculta nos planos privados, sem notificação oficial.

“Toda política de saúde depende de dados, e hoje eles são frágeis”, afirma Stephen Stefani, oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation. “Na saúde suplementar, a notificação não é compulsória. Então o país subestima a real dimensão do problema.”

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) informou à reportagem que não é possível medir a incidência de câncer na rede privada, responsável por aproximadamente 25% da cobertura populacional, porque desde 2010 uma decisão judicial impede o uso da Classificação Internacional de Doenças (CID) nas bases das operadoras.

O Ministério da Saúde tampouco possui dados que contemplem todo o sistema — apenas estimativas trienais.

Saiba mais aqui.

g1

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