sábado, maio 2, 2026
Esporte

Estamos perdendo porque já não somos mais o Brasil

Foto: Reprodução

A dor de mais uma eliminação vexatória em Copa do Mundo assegura aquilo que é perceptível aos meus olhos: o Brasil perde porque simplesmente já não pratica mais o genuíno futebol brasileiro. O “complexo de vira-lata” nunca esteve tão atual no Brazilian Soccer. Criado pelo escritor Nelson Rodrigues, o termo definiu a falta de autoestima dos brasileiros. Tudo teria começado com a derrota da Amarelinha na Copa de 1950. A expressão ganhou o mundo, perdura no tempo e, hoje, os brasileiros são vistos como seres menores em qualquer lugar do planeta e, por incrível que pareça, no futebol, mesmo sendo considerado a grande referência desse esporte.

Se havia algo que dava orgulho ao povo brasileiro era ver a Seleção “ridicularizar” os adversários com grandes exibições, graças aos seus tantos talentos, que bailavam em campo. A arte era a nossa maior arma. Não bastava vencer, era preciso o baile. Com exceção de Argentina e Uruguai, na América do Sul; França, Itália, Alemanha e algumas vezes Espanha e Inglaterra, as demais seleções eram saco de pancadas, com raras exceções.

Os cinco (05) títulos mundiais vencidos foram todos à base do talento imensurável do nosso futebol, tanto no ataque quanto na defesa. Éramos o único país no mundo que se dava ao luxo de levar 24 jogadores e deixar tantos outros craques de fora. Djalminha, Alex, Marcelinho Carioca, Amoroso, Evair e Neto são alguns exemplos de craques que nunca foram à Copa do Mundo. Era tempo de fartura, a máquina brotava em abundância preservando o que de melhor nós tínhamos – o talento com as bolas nos pés.

Depois de 2002, com o complexo de vira-lata soberbo, passaram a defender que o Brasil necessitava adotar uma filosofia europeia de jogar futebol. Começaram a produzir em grande escala jogadores robotizados. O improviso, a ginga, o drible, o poder da ofensividade, a alegria daquele anjo das pernas tortas deu lugar a atletas automatizados. Que milagre fez Gabriel para ir a duas edições de Copa do Mundo e fazer jus ao seu sobrenome Jesus? E o Fred, o Danilo e o Alex Sandro?

Com a precoce e dolorida eliminação para Croácia, um time comum, alcançamos basicamente o mesmo jejum obtido entre 1974 e 1994, mas com enorme diferença: no primeiro vazio de 20 anos sem vencer o torneio máximo da FIFA prosseguimos a jogar o puro futebol tupiniquim e produzindo jogadores fenomenais como Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Careca e tantos outros. Nesse espaço de tempo foi formada uma das maiores seleções do Brasil: o time de 1982, de Telê Santana. Como tudo na vida é passível de erros, esse talvez tenha sido o grande desacerto do futebol: não ter permitido ser coroado por aquela seleção. Não foi apenas a tragédia do Sarriá, mas a maior tragédia do futebol.

Em 2006 Zidane nos fez sofrer com seu futebol elegante. Apesar de ecoar contraditório, fomos vítima de sua habilidade, mais uma vez. Em 2010, liderados por Felipe Melo, Michel Bastos, Robinho e companhia voltamos para casa. Em 2014 virou passeio com Fernandinho, Dante, Bernand, Luiz Gustavo, Fred e o resto da família. Em 2018 sucumbimos para Bélgica. Fomos achincalhados com as quedas do Menino Ney e das “fantásticas” partidas de Gabriel Jesus “jogando sem a bola”? Agora foi a vez da Croácia nos abater. O Fato é que desde 2014 nossa esperança se resume aos lampejos do nosso único craque: Neymar. Todos esses fatos comprovam que precisamos urgentemente voltar ao cerne de nossa formação, praticar a nossa essência. A arte deu lugar ao toquinho para o lado ou para trás. Estamos perdendo porque já não somos mais o Brasil.

Sérgio Nascimento
Jornalista

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