Mensagem dos Espíritas aos macaibenses

E, entre túmulos silenciosos e tristes, pude ouvir melancólica voz, a bradar amargurada poesia, tecida pelas lágrimas e pela solidão.
Ó, morte, como ousaste furtar-me o filho? Não tens compaixão de um coração de mãe?
Que te fiz para cavar-me no peito a ferida que ora carrego, sem encontrar lenitivo e esperança?
Por que este punhal, a descer dos céus, ferindo-me a sensibilidade e furtando-me a alegria?
Vagueio entre estes mausoléus silenciosos, tentando escutar, outra vez, a voz do filho amado, que me arrebataste dos braços.
Contemplo as flores que bailam em cada cripta e indago, sem resposta: onde esconderam meu filho, sangue do meu sangue, alma de minha alma?
Onde estarão aqueles olhos que fitavam os meus nos dias risonhos da infância alegre?
Aquele sorriso que enchia nosso lar de alacridade e festa. Por onde correm aqueles pés ligeiros, fartos de energia e saúde?
Ó, morte, nunca fostes mãe!
Desconheces o afeto e a sinfonia que une dois corações, que por nove meses estiveram a bater juntos!
Tens inveja e despeito da felicidade alheia, e na tua sina sinistra, ceifas sem piedade um pedaço de nós, deixando o vazio e a saudade.
Ó, morte, onde te ocultas, com tua foice impiedosa e teu proceder despido de misericórdia?
Aparece, aparece e enfrenta minha dor sem fronteiras!
E exausta, tombou entre margaridas e loendros aquela pobre mulher, em sofrimento superlativo.
Quando a lixívia das lágrimas conseguiu asserenar o íntimo e a prece refez o coração em chagas, pôde observar uma personagem que se movia suave, como a deslizar por entre os túmulos. Tomada de espanto e surpresa, ouviu inesquecível canção:
– Filha, eu sou a esperança!
Tuas lágrimas me comoveram. Tua dor me chegou aos ouvidos, e venho em nome de Deus te assegurar que a vida continua.
– Olha em derredor e vê quanta vida florescendo! De cada túmulo, flores arrebentam cores e espalham perfume, sinalizando que a vida prossegue além do pó.
Teu filhinho, agora redivivo, regressa em festa de luz para afagar teu coração de mãe, buscando teu colo como outrora.
– Ele vive além da fronteira de sombras e ilusão, imposta pela tirania da carne. A morte apenas arrebata corpos, não tendo poder de aniquilar a alma.
– Eis apenas aqui a exausta carcaça que a doença consumiu, que a tragédia arrebatou. Vozes que se calaram na frieza do caixão agora cantam hosanas ao Senhor.
– Aquelas mãos frias te trazem agora, aquecidas pelo amor filial, braçadas de orquídeas e corbélias de ternura infinda.
– Prosseguem vivendo, lutando e aprendendo!
– Sai do teu letargo, converte tua saudade em esperança e confia! Além da campa fria, teus amores prosseguem te amando e vivendo. Jamais te esqueceram, apenas te pedem confiança e fé no grande futuro, quando um dia também te reunirás a todos eles, no grande lar. Ali, deixará de haver saudades e apenas amor banhará teus olhos que hoje choram.
E diante da infortunada mulher, o ser de luz se diluiu qual clarão da manhã, instalando nova compreensão naquela alma aflita.
Todos vós, que buscais a consolação no dia dos mortos, agasalhai a certeza inquebrantável de que a vida não se interrompe pela morte, antes, prossegue, mais nítida e viva do que antes.
Liberto da penitenciária de ossos e cartilagens, o ex-presidiário agora se locomove sem peias ou limitações. Ama mais intensamente.
Percebe mais claramente.
Aprende diariamente.
E pede em silêncio confiança e otimismo, fé e esperança até a vitória final.
Abandonei o jardim da saudade em silêncio, e aos tristes e desalentados, aflitos e apunhalados pela morte aparente dos afetos dedico esta singela página no dia dos redivivos.
– Eu vim para que tenhais vida, e vida em abundância!
Se o Mestre assim nos afirmou, nada a temer.
Sigamos. A vida continua.
Marta
Salvador, 02.11.2021
