sexta-feira, maio 1, 2026
Valério Mesquita

SUA EXCELÊNCIA O LÍDER COMUNITÁRIO

Valério Mesquita

mesquita.valerio@gmail.com

Semblante compenetrado, andar compassado, sobraçando uma pasta elástica com profusos papéis, alí vai senhores, o líder comunitário. Essa fauna começou a surgir ostensivamente ao tempo de Vilma Maia quando era Secretária do Trabalho. Com ela o ofício foi reconhecido e atribuído o status de agente político dos bairros periféricos de Natal. O líder comunitário é um eterno portador de problemas. É o atravessador da relação política entre o vereador e o prefeito ou deputado. Sempre é um crítico contumaz do vereador para tomar o lugar dele. Lembro-me de uma líder comunitária do Amarante, São Gonçalo. Certa vez, convidou-me para uma reunião noturna a qual estariam presentes cerca de cinquenta pessoas. E lá fui eu garimpar votos. Deparei-me com uma armadilha que me deu uma exata dimensão do trabalho do líder comunitário. Ela havia passado toda a manhã e a tarde, de casa em casa, recolhendo recibos de água e luz, além de receitas médicas e exames, anunciando que à noite, um deputado viria ajudar a quem precisasse. Desolado e descrente, fitei-a na reunião e ela estava de pé impassível, altiva, consciente que havia cumprido com o seu olímpico dever.

A Assembleia e a Câmara Municipal de Natal estão infestadas de líderes comunitários. A pasta elástica que pode ser azul, amarela, verde é o prefixo indefectivel que vale mais do que a identidade do ITEP. Abrir uma pasta de um líder é travar contato tópico, tático e até utópico com o mundo mágico e profundo da periferia ululante.

É preciso que se institua logo no calendário de eventos o “dia do líder comunitário’,’ a ser celebrado no Arena das Dunas porque a profissão é vasta e sempre existirá enquanto não faltar uma pasta elástica que seja azul, verde ou amarela.

(*) Escritor.

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