CANTIGA DE AMIGO

Valério Mesquita*
mesquita.valerio@gmail.com
Em Macaíba estão centradas todas as minhas amizades da infância. Os meus pais, moradores eternos da cidade, incentivavam o convívio com a meninada não importando a classe social. Assim fui educado. Dessa linhagem saiu Ismar Fernandes Duarte, falecido em Natal, vítima de infecção generalizada e complicações renais. Duartinho, como se tornou mais conhecido, era ainda cardiopata, safenado, hipertenso e fazia constantes hemodiálises, desde algum tempo. Ao morrer, contava com 62 anos, deixando uma história de resistência e insubmissão às enfermidades com tanto bom humor que cantava serestas para os médicos amigos no leito do hospital para divertir os pacientes. Seus pais, Augusto Duarte (falecido) e Estefânia (falecida) eram figuras conhecidas e admiradas em Macaíba. Casado com a seridoense Arlete, deixou sete filhos. Um de seus filhos, Heverton, é poeta e odontólogo na cidade, além de Anselmo, Ismar, Carlos, Ismarlete, Ismarleide e Ibson.
No tempo do povo romeiro que acendia velas votivas em louvor do candidato, das multidões andando ou pulando ao som da música obedecendo ao líder, Duartinho foi vereador por três vezes – substituía o discurso pela canção na cata do voto. Nessa época, os bares, as praças, as esquinas de Macaíba viravam palanques dos eleitores que incensavam os escolhidos e queimavam os depurados. Ismar habitava os três locais como profundo conhecedor dos mistérios da política e da seresta, ao lado de outros colegas como Manoel Guedes Filho e Adão Varela Revoredo. Eram as décadas de 60, 70 e 80, iluminadas pelas janelas abertas, pelos acenos, luzes e fogos da cidade encantada, onde ninguém perdia o rumo nem o prumo.
Vereador, cancioneiro e mecânico como o pai, enchia de humanidade o cotidiano de Macaíba pela maneira simples e humilde de ser. As páginas do livro político e social de Macaíba estão repletas dos seus exemplos, de suas fotos, dos seus gestos solidários e também do seu sofrimento. E que o diga o juiz Cícero Martins de Macêdo Filho que com ele conviveu em Macaíba como protagonistas da boa música. O traço predominante de sua personalidade era o desprendimento, a fidelidade às amizades e a honestidade pessoal. Afirmo tais virtudes para que elas não fiquem sepultadas no escuro da indiferença do poder público local. Reviver o perfil de Duartinho, amigo de infância, adolescência e da lide partidária, me leva a revisitar o mosaico e as paredes de nossa casa, testemunhas de conversas políticas e mexericos sobre a vida da cidade.
Que homenagem mais adequada posso oferecer do que uma cantiga de amigo? Relembrar aos que não o conheceram a sua vocação de compositor e versejador. Quantos não tomaram conhecimento dele, após deixar a política, com os seus versos publicados nos principais jornais de Natal? Ao adoecer, visitava-me com frequência no Tribunal de Contas, vindo do Hospital Onofre Lopes. Em Macaíba, ao tempo de minha mãe viva, almoçava conosco todos os sábados. E D. Nair, fitava-o e dizia: “Este é um amigo verdadeiro do meu filho. Duartinho é marca registrada”. Uma declaração com o selo da sabedoria.

