Dos laboratórios às clínicas: pesquisadores em Macaíba (RN) publicam artigo internacional sobre mecanismos de estimulação elétrica para tratar epilepsia

Considerada uma das condições neurológicas crônicas mais comuns do planeta de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a epilepsia afeta cerca de 1% da população mundial. Caracterizada por uma atividade neurológica excessiva que costuma desencadear crises, a doença pode ser controlada em cerca de 70% dos casos com o uso de medicamentos. Para cerca de 30% das pessoas acometidas pela doença, no entanto, os fármacos não são capazes de controlar as crises. Um método utilizado desde a década de 1960 para o tratamento de dor crônica e, mais recentemente, para pacientes de Parkinson, a estimulação elétrica tem sido um dos caminhos buscado por pessoas que buscam uma melhora para a condição. Apesar da aplicação clínica em seres humanos não ser uma novidade, o desenvolvimento de pesquisas básicas para compreender o funcionamento dessas estimulações no cérebro é muito mais recente.

Tentar reunir a produção científica existente sobre o tema em seu aspecto mais básico, em animais, para poder avançar nos tratamentos oferecidos aos seres humanos foi o objetivo da equipe de pesquisadores do Instituto Santos Dumont (ISD), em Macaíba (RN). Em artigo assinado pelo pós-doutorando do Instituto, Fernando Fiorin, na revista Life Sciences, os pesquisadores fizeram uma revisão de mais de 30 artigos sobre a estimulação elétrica em modelos animais. “Algumas drogas anti-epilépticas, que protegem das convulsões em humanos, foram descobertas inicialmente em animais. O intuito da pesquisa pré-clínica é este: levar o entendimento do que acontece em uma doença e a proposta terapêutica para aplicação em humanos, de forma a reduzir o quadro de uma doença”, explica Fiorin. Ele assina o artigo, intitulado “Electrical stimulation in animal models of epilepsy: A review on cellular and electrophysiological aspects“ [“Estimulação elétrica em modelos animais de epilepsia: uma revisão sobre aspectos celulares e eletrofisiológicos”, em tradução livre] ao lado da neuroengenheira pelo ISD, Mariane de Araújo e Silva, e do professor pesquisador do Instituto, Abner Cardoso Rodrigues Neto.

Segundo o pesquisador, apesar da importância da pesquisa pré-clínica para melhor conhecimento das terapias, poucas descobertas haviam sido feitas até recentemente sobre os mecanismos básicos do cérebro envolvidos nesse processo de estimulação elétrica no sistema nervoso central. “Então, os estudos pré-clínicos começaram a mostrar como algumas vias moleculares podem influenciar nessa proteção, e também melhorar a qualidade dessas estimulações, visto que nem todos os parâmetros de estimulação são responsivos à melhora de um indivíduo com algum estudo”, afirma o pesquisador Fernando Fiorin.

A partir de palavras-chaves, os pesquisadores buscaram os artigos produzidos sobre estimulação elétrica em ratos para tratamento de epilepsia, utilizando métodos invasivos, semi-invasivos e não invasivos. Os resultados demonstram que o método pode ser uma ferramenta eficaz contra as crises – mas que precisa ser melhor estudado para que sua atuação no organismo seja bem compreendida. “Esses trabalhos com animais dão uma amplitude maior ao conhecimento de como as estimulações podem funcionar e melhorar o tratamento. Ainda existem pacientes que não respondem às drogas anti-epilépticas e também a parâmetros de estimulação. Então, nós concluímos, com esse trabalho, que os modelos de estimulação elétrica, sendo mais explorados e melhor identificados, podem amplificar e melhorar a qualidade dos métodos terapêuticos utilizados em pessoas com epilepsia”, destaca Fiorin.

O professor Abner Rodrigues afirma que o primeiro passo antes de pensar em propostas para atuar em algo específico, como é a intenção do grupo para o futuro, é compreender o que está sendo produzido ao redor do mundo para poder direcionar melhor as pesquisas e contribuições. “Dá-se uma olhada naquilo que se chama de “o estado da arte” daquele tema: o que as pessoas estão fazendo com os resultados que conseguiram ali, e como a gente pode contribuir? É dessa forma que a ciência avança. São vários grupos distribuídos ao redor do mundo e, enquanto uns fazem coisas, outros estão envolvidos na análise dessas coisas de forma a melhorar o quadro geral”, afirma.

No caso de trabalhos científicos de revisão, como foi o do artigo publicado pelos pesquisadores na revista Life Sciences, a principal contribuição será para aqueles que buscam ingressar na área, ressalta Rodrigues. “O objetivo deste trabalho não é servir apenas para nós, mas também para os demais. Trabalhos de revisão são muito utilizados quando uma pessoa está ingressando em uma área, porque ela evita de ter de ler 50 artigos, por exemplo. Eles partem desse trabalho que analisou uma série de outros para fazer o deles e avançar a partir dali”, explica.

Instituto Santos Dumont (ISD) – Assessoria de Comunicação

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