João Câmara, ‘Terra dos Abalos’: maior terremoto do RN completa 40 anos e mudou a sismologia no Brasil

Eram pouco mais de 3h da manhã quando o barulho começou. Antes que moradores conseguissem entender o que estava acontecendo, paredes balançaram, telhas caíram e uma cidade inteira acordou assustada.
Em poucos segundos, João Câmara, no interior do Rio Grande do Norte, viveria a madrugada mais dramática de sua história, com reflexos que foram além: mudando a trajetória da sismologia brasileira e provocando o maior êxodo da história do município.
Naquele 30 de novembro de 1986, um terremoto de magnitude 5,1 atingiu o município na região do Mato Grande potiguar. O sismo foi o maior já registrado no Estado e um dos maiores do Brasil. Milhares de imóveis foram devastados e cerca de 10 mil pessoas ficaram desabrigadas.
Quase quarenta anos depois, a lembrança daquela madrugada continua viva na memória de quem presenciou o episódio.
O terremoto e outros sismos que a cidade e a região registram desde então são explicados pela ‘Falha de Samambaia’, a maior do país e que corta os municípios vizinhos. A gravidade do tremor também fez com que os brasileiros percebessem que o Brasil não é imune a abalos mais fortes.
Segundo o geofísico e especialista em sismologia, Aderson Nascimento, a localização geográfica de João Câmara faz com que sejam frequentes os registros. “É uma sismicidade que ainda ocorre.”
“João Câmara, Terra dos Abalos” é uma série do g1 que relembra os 40 anos do maior terremoto já registrado no Rio Grande do Norte e um dos maiores do Brasil. Outras duas reportagens serão publicadas sobre o tema.
‘Um tremor diferente’
Os tremores vinham se repetindo havia meses. A cidade já convivia com os abalos sísmicos de forma mais frequente desde junho, mas na madrugada do dia 30 não houve tempo para pensar.
Na ocasião, centenas de moradores participavam de uma festa na Associação Clube dos Dirigentes Lojistas (ACDB), um dos principais pontos de encontro da cidade. Entre eles estavam o radialista Josinoi Ferreira, de 60 anos, e o então vereador Osório Avelino, 73.
Josinoi havia acabado de sair do salão quando sentiu o chão tremer. “Estava no bar, fui comprar um refrigerante. Quando vi a terra tremendo como se estivesse sendo destruída com compressores, saí imediatamente, fui o primeiro a pular a roleta na ACDB”.
Também na festa, Osório percebeu imediatamente que aquele tremor era diferente dos anteriores. “Na hora do abalo, nós ficamos sem luz e sem comunicação. Ninguém tinha coragem de ficar dentro de casa, porque balançou tudo”, conta.
Longe do show, a então merendeira Francisca Vieira, de 76 anos, já havia colocado os dois filhos para dormir. Ela já estava em alerta com os frequentes sismos. Durante muitas noites, ela e a família deixavam a cidade para dormir em um sítio de parentes, com medo de que a casa não resistisse a um novo abalo.
A dimensão da tragédia levou o então presidente José Sarney a visitar João Câmara poucos dias após o terremoto. Na ocasião, ele anunciou apoio para a recuperação do município e autorizou o envio de equipes técnicas, recursos para reconstrução de moradias e especialistas para acompanhar a sequência de tremores.
Falha de Samambaia
Quando o tremor terminou, ninguém sabia exatamente o que havia acontecido e o porquê. Muitos deixaram as casas apenas com a roupa do corpo. A cidade ficou sem energia elétrica e comunicação.
As primeiras horas foram marcadas pelo medo e incerteza. Havia relatos de imóveis rachados, paredes no chão e famílias inteiras reunidas em praças e terrenos abertos, receosas de voltar para dentro de casa.
Autoridades tentavam entender a dimensão do desastre, que nessas proporções, em área urbana, era considerado uma novidade no Brasil.
O medo da população rapidamente abriu espaço para desinformação. Havia quem acreditasse que a cidade iria afundar ou que havia um rio caudaloso subterrâneo sob João Câmara. Também circulavam previsões de cunho religioso de fim do mundo.
A verdade é que o terremoto teve origem na chamada Falha de Samambaia, uma fratura geológica que corta os municípios de João Câmara, Parazinho, Poço Branco e Bento Fernandes.
