Volta para casa: desejo de advogado vira livro sobre Augusto Severo

No dia 12 de maio de 1902 o dirigível Pax “explodiu” nos céus de Paris, pondo fim à vida de seu inventor, o político e aeronauta potiguar Augusto Severo. De volta ao Brasil, seus restos mortais foram enterrados no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Quase 120 anos depois, o advogado Armando Holanda iniciou uma cruzada pessoal: devolver Severo ao seu chão de nascimento, Macaíba. A tarefa não tem sido fácil, por uma série de fatores. Enquanto o corpo do aeronauta pioneiro não volta ao RN, Armando registrou sua batalha no livro “Augusto Severo: o retorno”. Um documento para reafirmar a importância histórica da iniciativa.
O advogado Armando Holanda iniciou uma cruzada pessoal: devolver o corpo do inventor, o político e aeronauta potiguar Augusto Severo ao seu chão de nascimento, Macaíba, 120 anos após a sua morte.
“O livro é uma prestação de contas de minhas tentativas frustradas”, diz Armando Holanda, entre o desabafo e a brincadeira. Admirador há anos de Augusto Severo, ele achava injusto que uma das figuras mais ilustres de Macaíba estivesse fisicamente tão longe de seu berço original. Advogado experiente, Holanda se cercou de todos os recursos legais para a empreitada: conseguiu autorização judicial e procuração das bisnetas de Severo para fazer a exumação e posterior translado do corpo para o RN.
O obstáculo, no entanto, estava no próprio cemitério em Botafogo: o mausoléu construído pelos praças da Marinha de Guerra do Brasil, que deram a Augusto Severo o título informal de ‘almirante’. Trata-se de uma estrutura maciça de alvenaria, toda concretada, em formato piramidal com um obelisco por cima. “Ele é hermeticamente fechado, e teria que ser todo destruído para termos acesso ao corpo”, diz o advogado.
A estrutura teria que ser reconstruída depois, com recursos do próprio Armando Holanda. Tem mais impasses envolvidos. Há pouca informação sobre as responsabilidades envolvendo o mausoléu, se é tombado ou não, e quem responde por alterações nele. Tudo isso envolve mais tempo, pesquisa, e burocracias diversas. Agora, diante do entrave, Armando adianta que levou a questão ao governo do estado, que está criando uma diligência para assumir a missão.
Mais uma vez, Armando se refere ao livro como a “história de um insucesso”, mas que possui uma virtude: provocou o debate sobre a importância de trazer Augusto Severo de volta pra casa. O livro teve prensagem de apenas 200 cópias e não foi posto à venda – só distribuído entre amigos e instituições. É, de fato, o registro de um sonho.
O advogado mandou confeccionar uma urna funerária especialmente para a ocasião do translado. Enquanto o sonho não se concretiza, ele adianta que já existe todo um trajeto programado para quando o corpo de Augusto Severo estiver aqui: primeiro, haverá uma sessão solene no Instituto Histórico e Geográfico do RN, e em seguida um cortejo até Macaíba com todas as honras militares.
Armando Holanda aprendeu a admirar Augusto Severo desde criança. O advogado nasceu em Governador Valadares, Minas Gerais, mas foi criado em Macaíba, onde chegou aos dois anos de idade. “No Grupo Escolar Auta de Souza a gente cantava o ‘Hino de Augusto Severo’ pelo menos duas vezes por semana. Guardei na memória a trajetória do herói de Macaíba, do Brasil, da França e do mundo”, diz.
Ares parisienses
Uma curiosidade: segundo Armando, Augusto Severo é o único brasileiro a ser nome de rua em Paris. “A Rua Severo é longa, e tem pelos menos três pontos comerciais que fazem menção ao nosso potiguar. É algo que nem o Santos Dumont tem”, ressalta. O advogado lembra que na mesma rua se lembrou dos versos do hino cantado na infância. “Cantei-o, integralmente, para o espanto dos perplexos acompanhantes”, conta.
Augusto Severo de Albuquerque Maranhão nasceu em Macaíba, no ano de 1864. Aos 20 anos passou a se interessar por aerostação, enquanto atuava como professor de matemática, comerciante, empresário, e deputado, em que teve grande atuação. Paralelo a tudo isso, sua paixão pelas máquinas do ar continuava.
Em fins de 1901, Severo licenciou-se da Câmara para viajar à França e se dedicar à construção de um novo dirigível, o Pax, inflado a hidrogênio. Meses depois, faleceu no acidente que também vitimou o mecânico de bordo francês Georges Saché. Seu nome entrou para a história dos pioneiros da aviação.
Tribuna do Norte

