Defensores de direito animal repudiam informações sobre surto de esporotricose no RN

Foto: José Aldenir/Agora RN

Associações animais e entidades ambientais de Natal estão repudiando a matéria sobre o surto de esporotricose no estado, publicada no portal de notícias da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), nesta última sexta-feira (24).

A publicação informa que ao menos 131 pessoas foram diagnosticadas no Rio Grande do Norte com a doença, e um óbito foi confirmado, nos últimos dois anos, segundo levantamento da própria universidade. A esporotricose é uma micose provocada por fungos, que afeta humanos e animais.

Para presidente da EcoAnimal RN, Lia Medeiros, a matéria estimula o abandono de animais e o maus-tratos com os bichos em situação de rua. “Da forma como a notícia foi dada, criou-se um alarde muito grande na população. Muita gente abandonando os cães e gatos com medo de ficarem com eles em casa”, disse. Não foram divulgados dados sobre a quantidade de abandonos de animais em virtude da doença.

A médica infectologista e professora da UFRN, Eveline Pipolo, ressalta que a ideia da matéria era alertar para o diagnóstico precoce e a tutoria responsável. “Queremos conscientizar a população para doença, visto que ela é de fácil diagnostico, tratável e curável. Não queremos o abandono de animais, mas, sim, o amparo sério e adequado dos donos aos animais”, destaca, ressaltando a importância da população conhecer a esporotricose.

Trabalhando no resgate de animais, a voluntária Neide Franco diz que a interpretação errônea das informações podem aumentar o número de cães e gatos na rua. “Temos que entender que os gatos são tão vítimas quantos os humanos. Eles sofrem como a gente”.

A presidente do Instituto Senhores Patas, Lucy Lima, conhece uma família que quer doar o gato, porque está com medo do animal ser contagiado com a doença. “Além do abandono dos gatos que têm lar, me preocupo com os que estão na rua. Eles já sofrerem, imagina com uma notícia dessas?! As pessoas têm que entender que, se o gato está lá no canto dele, não precisa mexer, maltratar”, marca.

Os gatos têm maior facilidade de aderir a doença, pois o fungo está presente na natureza, no solo rico em material orgânico, nos espinhos de arbustos, em árvores e vegetação em decomposição – espaço que os felinos habitam.

Eveline ressalta que não é necessário abandonar o animal, desde que observe o mesmo, como atentar-se a machucados e ferimentos no corpo. Tal atitude pode ajudar a diagnosticar a doença, melhorando o tratamento e tendo mais chances de alcançar a cura. “Precisamos pensar em políticas públicas para os animais, para que eles possam ser bem tratados”, frisa.

A médica infectologista explica que a transmissão da doença acontece pelo contato com um animal infectado com o fungo, seja por arranhão ou mordida.

Os gatos têm maior facilidade de aderir a doença, pois o fungo está presente na natureza, no solo rico em material orgânico, nos espinhos de arbustos, em árvores e vegetação em decomposição – espaço que os felinos habitam.

De acordo com Eveline, os sintomas da esporotricose aparecem após a contaminação do fungo na pele e o desenvolvimento de pequenos nódulos na região. O desenvolvimento da doença vai depender de fatores, como o estado imunológico do indivíduo e a profundidade da lesão.

O tratamento, segundo o médico infectologista Antônio Araújo, é de 3 a 6 meses, geralmente com um comprimido diário. Em caso de suspeita, é necessário direcionar-se para o Hospital Giselda Trigueiro, no bairro Quintas, em Natal, onde o tratamento está centralizado.

Eveline explica que o tratamento não está disponível em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), pois tem que ser solicitado individualmente ao Ministério da Saúde. “Temos que fazer um cadastro de cada pessoa para enviar ao ministério. Quando a medicação é entregue, a pessoa faz o tratamento todo em casa, mas acompanhando por uma equipe médica”, acentua.

Os animais também têm o tratamento disponível, de 6 meses a 1 ano com um comprimido, como explica o médico veterinário Marcos Félix. “Durante o tratamento é necessário manter ele isolado para evitar a transmissão”, explica, além de reforçar que “o fungo está na lama, na madeira, na planta. Os animais são tão vulneráveis quantos nós”.

O médico alerta que, nos casos em que o animal morrer por esporotricose, é necessário incinerar o corpo, visto que enterrá-lo vai manter o fungo no solo, podendo gerar novas infecções. De modo geral, ele afirmou que o tratamento traz bons resultados.

Um exemplo de tratamento assertivo, é o gato Arthur, de Lia, que foi diagnosticado com esporotricose e iniciou o tratamento precocemente. Em 2 meses, a evolução do seu quadro foi significativa. “Ele foi diagnosticado, eu tratei, e não peguei a doença. Ele evoluiu muito. Não é o fim do animal. Não há motivos para abandono”, frisa.

Agora RN

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