O PACTO PELA VIDA E A REABERTURA

Dra. Ionara Nunes
No início do mês de junho, após notícias cada vez mais alarmantes de aumento de casos de Covid-19 e aumento do número de mortos pela pandemia, o governo do Rio Grande do Norte lançou o famoso Pacto pela Vida, iniciativa conjunta a diversos municípios do Estado, com o devido apoio das forças policiais para intensificar o isolamento social e assim diminuir a taxa de transmissão e, consequentemente, diminuir a pressão por leitos nos hospitais da rede de saúde para tratamento dos infectados.
A iniciativa gerou muita polêmica, como era esperado, dividiu opiniões, foi chamada por uns de “lockdown disfarçado” e, claro, inundou as redes sociais de todo tipo de comentário, do mais sensato ao mais absurdo e ocorre que, passados quase trinta dias da medida, temos números cada vez maiores de infectados e mortos, porém segundo dados atualizados do governo, a taxa de transmissão da doença diminuiu e houve uma diminuição da procura por leitos de UTI na rede de saúde.
Diante de tal fato, essa semana o Governo fez a reabertura das atividades comerciais. O que a princípio parece ser motivo de comemoração, pode esconder uma grande preocupação, pois assim vejamos: estamos prontos para uma reabertura? A fiscalização proposta pelo Pacto pela Vida foi devidamente cumprida? As aglomerações foram evitadas? Houve respeito de fato pelo isolamento social? Cabe também uma pergunta incômoda: o governo cedeu a pressões?
É evidente que viver em isolamento é uma tarefa árdua para a sociedade como um todo e muitos sequer tiveram o direito de fazê-lo, pois temos de levar em consideração que a parcela mais pobre da população, a maioria, não tem condições financeiras e habitacionais para se isolar, porque até o direito ao auxílio emergencial que deveria chegar para poder garanti-lo não chegou para muitos e, para os que foram contemplados, foi à custa de humilhantes esperas em filas quilométricas causando aglomerações na porta da Caixa Econômica.
Além disso, a quantia paga não foi e não é suficiente para prover o sustento de uma família, ou seja, a exposição dos mais vulneráveis aos perigos do vírus continuou, pois, sejamos francos, o nosso isolamento social verdadeiramente foi medíocre. O município de Macaíba é um exemplo claríssimo disso. Todos os dias as ruas estão lotadas e as razões são inúmeras.
Finalmente, diante de cenário tão complicado temos agora a reabertura e, se por um lado ela gera um fio de esperança de que a vida está voltando ao normal e a tempestade está indo embora, por outro surge o medo de que devido a tudo o que se vê diariamente a iniciativa acabe sendo pior e tenhamos que voltar ao isolamento de forma mais rígida.
É importante fazer as seguintes perguntas: o governo cedeu a pressões para essa reabertura? Estamos prontos para ela? A fiscalização para que as aglomerações sejam evitadas será efetiva? Como se dará tudo isso? E os mais vulneráveis? Tomara que tudo isso de fato dê certo.
